
Tenho passado por vários momentos de fraqueza durante estas últimas semanas que antecedem o vestibular. A questão de como eu vou trilhar minha vida daqui há uns anos me contorce e a pressão da sociedade capitalista de cobrar comportamentos regrados de nós, futuros profissionais, me entristece. Minha mãe, funcionária pública do Tribunal Regional do Trabalho, me contou uma história há poucos dias que me comoveu.
Um ex-trabalhador negro rastafári foi ao Tribunal Regional do Trabalho resolver algum rolo trabalhista, no qual eu não me lembro, e minha mãe o atendeu. Durante o atendimento, ela o perguntou se era difícil arranjar emprego com tamanha cabeleira cheia de “dreadlocks” e ele respondeu que tinha acabado de ser demitido de uma empresa – na qual trabalhava como servente – por ter tirado a boina durante a labuta. Contou que sempre usava a boina – daquelas com as cores da Jamaica – durante o expediente. Depois de anos de trabalho ele resolveu tirá-la e, no mesmo dia, foi demitido. Em seguida, contou à minha mãe, revoltado, que não concordou com a atitude da empresa em demiti-lo e sorriu ao dizer que o que ele gosta mesmo é de tocar, de tocar reggae. Disse que quando está tocando adquire uma proteção contra os males e nada o atinge.
Ao ouvir essa história, senti empatia. Coloquei-me no lugar desse rapaz e senti a rejeição sofrida por ele. É, pode até ser pelo fato de eu tocar também, mas eu não sou negro, nem rastafári e nunca trabalhei como servente na vida. Acho que senti empatia pela sensibilidade que adquiri neste pouco tempo de vida, que me abriu a cabeça e me fez perceber que o mundo é comandado. E pior: é comandado por poucos! São eles que ditam as regras, estabelecem decretos, firmam acordos, casam-se com as mulheres mais requisitadas e ganham mais. São eles também que burlam as regras, desviam verbas, agridem mulheres e matam por dinheiro.
Às vezes fico pensando no trilho de pessoas como o rastafári, um trilho já traçado, premeditado, sem nenhuma escolha. E, de imediato, comparo com o qual irei seguir e constato que não há muita diferença quanto à escolha. Será que, se eu seguir os padrões sociais, serei alguém que irá comandar? Será que irei contribuir para o ciclo natural do capitalismo? Será que estarei no lugar da pessoa que o demitiu? É esse o trilho que a minha classe social segue. Não quero isso para mim, não quero arrancar o pouco dinheiro que um servente ganha por questões de estética. Parece ser meio estranho um jovem de 17 anos, estudante de colégio privado que cobra mais de 1.000 reais ao mês na mensalidade, pensar desse jeito. Parece querer mudar o rumo natural das coisas, parece estar nadando contra a correnteza. Quero mudar este cenário no qual vivemos. Não quero apenas estar protegido dos males enquanto estiver tocando!
ps.: Eu sinto medo em relação ao meu futuro, sinto medo de me tornar um monstro adestrado pelos tentáculos do capitalismo.

7 comentários:
Estamos juntos contra essa correnteza que desumaniza as pessoas!
Parabéns pelos textos, caro jovem jornalista e colega.
Fabinho!
Parabéns pelo seu blog!
Gostei muito de seus textos! Seus argumentos e
opiniões fundamentados historicamente e muito bem escritos! =D
Quanto ao seu último texto, botou prá lá! Quem dera tivéssemos mais pessoas que pensassem assim! Mas, como se pode desejar esta proeza, se não há possibilidades remotas de alguma educação e dignidade para TODA A HUMANIDADE!
Você será grande no que desejar fazer, disso
posso ter alguma esperança!
Boa sorte! E que sorte boa para aqueles que lhe
terão como profissional!
Beijo!
Camila San Galo 3 B do Módulo!
ótimo texto cara!
realmente será difícil enfrentar esse mundo capitalista que de certa forma padronizou a nossa realidade
porém o importante é não deixar que ele nos devore e nos transforme em tudo aquilo que hoje criticamos!
um abraço!!
Também tenho medo, também quero nadar contra correnteza. Talvez por isso, lorena e fabio, nós faremos jornalismo, pra expor idéias. Talvez por isso, fabinho, fazemos arte.
Quando deixarmos a condição de pré-vestibulandos e retomarmos o controle sobre nossas vidas, lembremos do MESTRE RAUL: "Queira/ basta ser sincero e desejar profundo/ você será capaz de sacudir o mundo".
TAMO JUNTO, na arte e no trabalho!
Fabiinhooo... mt bom os textos mais uma vez! Tanto o do "Ou Não" qto este.. parabéns mais uma vez, e qdo escrever de novo me diz!
beijos
Pois é, Cara!
Vivemos em um lugar onde as pessoas ainda precisam lutar muito pelas suas liberdades.
Salvador, por ter sido a primeira capital do país, foi o lugar do Brasil que recebeu a maior quantidade de escravos. Recebeu os melhores (e nós vimos o que isso significa, ser um bom escravo: ser forte e sobreviver).
Há pouco mais de 100 anos (120 para ser exato) foi abolida a escravidão no Brasil. Historicamente falando, é um tempo muito curto para grandes transformações, ou seja, apenas três ou quatro gerações ainda incapazes de chegar à uma escola de qualidade e, portanto, servidores, faxineiros, desempregados etc. Lembra? 87% da população de estudantes do ensino básico ainda está nas instituições públicas. A gravidade deste fato está posta apenas para quem conhece a realidade da escola pública.
Vou te mandar um arranjo de "Alegria da cidade", de Lazzo e Jorge Portugal, que fiz quando trabalhei no Projeto Axé. É uma linda música.
"Apesar de tanto não, tanta dor que nos invade, somos nós a alegria da cidade"
Mas é isso aí. Não basta apenas ter idéias. Tem que colocá-las em prática. Como? Fazendo as pessoas pensarem e terem iniciativa. Como? Sensibilizando.
O mundo precisa de harmonia.
Parabéns pelas idéias.
Já está no meu 'favoritos'.
Abração,
Carlinhos.
Continue assim meu velho!
Seus textos são otimos, muito boa essa sua atitude e acho que pode encorajar muitas pessoas a tambem lutarem contra correnteza.
COntinue inquieto, a quietude das pessoas que deixou a sociedade chegar onde chegou!
Um forte abraço.
Muniz
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