quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Multifacetadas particularidades capitalistas


Hoje, sérias questões decorrem da apropriação dos meios de produção e da falta de regulamentação do mercado capitalista neoliberal, pois a crise nos remete a esse germe trágico que a sociedade produziu durante o processo histórico. A crise econômica, que abala a esfera político-social dos Estados, é fruto da propriedade privada dos meios de produção. A particularização da propriedade - quando se fala em propriedade, é propriedade produtiva, é o meio de produção - foi a salvação da burguesia na Idade Moderna como classe explorada diante à realeza absolutista, que fazia parte da nobreza. E desde essa época até hoje, a propriedade privada dos meios de produção está consolidando o espírito capilista que se dispersa e corrói como um vírus as sociedades civis, as culturas populares e as unidades econômicas dos Estados através do moderno processo de globalização. Por isso que hoje, ao se discutir a crise devemos analisar a dialética da história humana para perceber as intenções e ideologias que se tornaram fundamentais para esse abalo econômico. A crise não só se restringe à esta que presenciamos hoje e nem à de 1929, mas sim à crise estrutural do sistema capitalista.


Egoísmos econômicos e políticos traçaram a história do capitalismo. A superprodução, o superlucro e a frágil regulamentação econômica do Estado são os maiores exemplos desses egoísmos burgueses. Eles demonstram a excessiva individualidade dentro de um processo que determina a vida social da população: a produção. Produzir para quem? Como produzir? E quanto produzir? Essas são as diretrizes da atividade econômica de um país. Elas são encaminhadas por uma pequena parcela da população que detêm os meios produtivos e que nem sequer reconhecem a alteridade nas suas atitudes. O outro vem a ser, literalemente, o outro: que não é você e, portanto, não faz parte de você. A produção vem a ser fruto dos interesses de superlucro dos burgueses e se institui a valorização produtiva dos produtos lucrativos, que, predominantemente, são supérfluos. Os produtos que são necessários, porém, não atrai o consumo tentador e, portanto, não são lucrativos.


Prudentes e otimistas são aqueles que vêem o capitalismo numa ótica de insustentabilidade: o capitalismo é insustentável e, por isso, que nós - consumistas alienados - temos papel importantíssmo, senão o maior, na manutenção e fortificação desse sistema neoliberal. A ruína do capitalismo sustenta-se justamente na produção. A exacerbação da oferta gera diminuição da procura, pois a capital da oferta é acumulado pela exploração do trabalho da população consumista, fazendo com que a desigualdade entre o patrão e o empregado se reflita na oferta e na procura econômica. Está é a insustentabilidade do capitalismo: quanto mais ele se fortalece, mais cava o seu próprio buraco. É por isso que hoje, o capitalismo, com a sua inteligência maquiavélica, não é tão vulgar e grosseiro a ponto de produzir sua falência, ao invés do superlucro.


A solução para o quadro vulgarmente apresentado acima é justamente o oposto do mesmo: ao invés da propriedade privada dos meios de produção, insitucionaliza-se a propriedade social dos meios de produção; ao invés do individualismo, o coletivismo; ao invés da produção de superflúos geradores do superlucro, a produção de necessidades sociais, etc. A grande questão é o pensamento interdisciplinar da sociedade, é o pensamento em todas as facetas sociais para se poder resolver as carências gerais e poder atingir a felicidade mútua com abundância para todos.

Qualquer semelhança com as idéias marxistas não é mera coincidência.

6 comentários:

Pedro Tanure disse...

Bom, leio esse blog faz muito tempo (acabei achando no scrapbook de Bota), mas nunca me manifestei. Porém, acho que esse post diz respeito à minha área de estudo, então vou tecer alguns comentários.

Não entendo o porquê de tanta aversão aos direitos de propriedade. Eles, junto com regras estáveis e com um ambiente propício à competição, são os primeiros passos para um crescimento econômico de longo prazo. Vale lembrar que, antes do estabelecimento da propriedade privada e seus consequentes desdobramentos, o mundo vivia andando de lado há séculos em se tratando de qualidade de vida, PIB per capta etc. O sistema de economia de mercado conseguiu multiplicar de uma maneira jamais antes vista o nível de bem estar de toda a população que o experimentou de forma correta. É de se espantar ver um continente como a Europa, que outrora lutava para se manter nutrido à base de grãos e vivendo em condições que hoje são precárias, tem padrões de vida jamais imaginados pelos habitantes de antigamente. A propriedade privada permite que os indivíduos tenham a liberdade de alocar seus recursos da forma que acharem mais conveniente para si e para os outros. E nada melhor para uma sociedade do que permitir que seus cidadãos possam realizar as escolhas que julgam ser as melhores de acordo com suas opções.

O capitalismo deixou as pessoas egoístas? Acho esse o pior argumento possível. É preciso dissociar o egoísmo inerente ao ser humano (que é predominantemente egoísta, mas não totalmente) do capitalismo. Este foi "criado" justamente para direcionar os incentivos das pessoas em prol desse egoísmo. Mas é ruim ser egoísta? Em se tratando de relações econômicas, não tanto. É em busca do ganho individual que a sociedade toda sai ganhando. Quanto mais o ofertante tenta vender, mais ele vai se adaptar às preferências do consumidor, desenhando produtos que de alguma forma o satisfaçam. O consumidor, do outro lado, ao querer gastar o mínimo possível, acaba selecionando as empresas mais eficientes e, de quebra, ajuda outros consumidores a não gastar mais. As pessoas reagem a incentivos; bastou eles serem direcionados da forma correta para os ganhos sociais serem amplificados em escala recorde.

Não vejo o capitalismo como insustentável. Talvez o único limite (em se tratando da produção) seja mesmo o dos recursos naturais, além do limite de espaço neste planeta. Ainda não entendi o seu argumento de que "A exacerbação da oferta gera diminuição da procura", é um argumento totalmente anti-econômico. A ideia da ampliação das desigualdades ao longo do tempo que acaba explodindo a relação de dominância do capital é bastante controversa, depende basicamente da base de comparação. Se você for analisar hoje, o operariado inglês (grande fonte de análise pro velho Marx) está hoje em condições muito melhores do que na época do barbudo. Exploração existe, natural de um ser vivo que já escravizou a si mesmo, mas este só é exacerbado quando o lado fraco não tem o poder de barganha necessário: a inexistência de "acumulação primitiva de capital" humano acaba deixando os salários pouco flexíveis pra cima. Não há como remunerar muito um trabalhador com baixa produtividade marginal. E, por favor, não é do interesse das empresas a ignorância, pelo menos não das competentes e inovadoras.

E, bem, não vou contra-argumentar opiniões sobre comunismo, socialização das coisas etc. Não acho que esse é um sistema próprio para seres humanos.

Fábio disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fábio disse...

Isso! Desculpe-me por ter escrito essas agressões à Economia. Escrevi de ousado mesmo. Foi uma declaração de um menino anti-capitalista...
Entendo que a concorrência e o egoísmo "saudável" contribuiram para o crescimento da Economia e, posteriormente, para o sistema capitalista. Mas, também entendo o quanto as consequências dessas atitudes egoístas não contribuiram para a sociedade - principalmente a dos países subdesenvolvidos. Pensar em como definhar, ou mesmo acabar, com a raíz do sistema capitalista é uma utopia. Eu sei. Utopias são importantíssimas para um futuro mais sociável, mais habitável, mais universal. E pensar nessa mudança é, também, questionar o sistema de produção. E, mesmo eu não tendo conhecimento sobre a Economia em si, penso que o sistema atual deve falir!
Não quero pensar no lado bom do capitalismo, enquanto houver tamanha desigualdade entre as classes. Sou marxista, sou anti-capitalista, sou anti-globalização capitalista, sou anti-economistas egoístas. Sou a favor de um pensamento PLURAL do mundo.

"E, bem, não vou contra-argumentar opiniões sobre comunismo, socialização das coisas etc. Não acho que esse é um sistema próprio para seres humanos."

Isso é ridículo, pelamordedeus! Quer dizer que o ser humano não pode socializar as coisas? Caramba... Isso é que é um pensamento totalmente egoísta e, talvez, alienado. É contra esse tipo de pensamento que eu vivo!
Quero deixar bem claro que o meu comentário é contra os seus pensamentos. Não contra a sua pessoa, Pedro Tanure.

Pedro Tanure disse...

Fábio, relaxe que eu não levo a mal não, também sou a favor da pluralidade.

Já tive minhas inclinações esquerdistas durante um tempo, por isso entendo boa parte dos seus argumentos. De fato, há MUITO ainda o que se fazer em prol do desenvolvimento econômico e social da Humanidade como um todo. O que deixei de idealizar ao longo do tempo foi uma sociedade com total socialização dos bens materiais. Como falei antes, concordo com alguns clássicos à respeito do egoísmo do ser humano. Faz parte da nossa natureza sermos assim, a história está aí pra comprovar. Mas também não acho que somos TOTALMENTE egoístas. Há comportamentos altruístas, e inclusive pessoas que realmente só se importam com os outros. No entanto, isso sempre foi uma minoria, uma exceção, e não creio que devamos contruir um modelo de sociedade com base em exceções.

Como manter uma sociedade comunitária? Primeiramente, já poderíamos considerar o progresso tecnológico e científico fadado à estagnação, ou ao menos a um crescimento ínfimo ao longo do tempo. Como disse antes, as pessoas reagem a incentivos. Qual o incentivo de você se dedicar totalmente a um progresso se, no fim das contas, não ganhará nada com isso? É por isso que existem patentes, direitos autorais etc. Não é à toa que grupos como escritores e a indústria farmacêutica sejam contrários à abolição dessas ferramentas. Nunca esteve num grupo de trabalho no qual metade do grupo simplesmente senta e espera os outros trabalharem? A conversa é por aí. Tudo bem, o que eu acabei de falar não é o que eu desejaria como ser humano, mas acho que precisamos deixar de pensar num ideal muito lúdico, porém irreal. Além disso, a escassez de recursos, com o aumento da população, acabaria uma hora ou outra fazendo com que alguém dissesse "ei, isso é meu!". Foi assim que começou Atenas, se não me engano. Sociedades absurdamente primitivas chegaram a ser comunitárias, mas creio que isso seja mais um problema de sobrevivência do que uma filosofia de como a sociedade deveria ser. Basta ver que daquele modo eles não permaneceram.

Concordo com você a respeito do "desastre" e da vergonha que se tornou o mundo subdesenvolvido. Porém não creio que isso se deva ao capitalismo em si. Como já disse o economista e filósofo Eduardo Giannetti, o que estragou essas sociedades não foi a economia de mercado, e sim o emprego mal feito desse sistema, repleto de distorções e absurdos, através de manipulações dos governantes. O problema maior? Falta de boas instituições estáveis, que garantam que possam produzir, consumir e se defender contra abusos e violência. Políticas redistributivas também ajudam, e sou bem a favor disso. O que quero dizer é que o capitalismo, em essência (veja bem, em essência), não é o culpado por isso, é um modo de produção. O que pode prejudicar são instituições ruins, e nisso incluo instituições políticas. É de fato uma bosta ter governantes que não trabalham em prol da sociedade, mas isso tem muito a ver com o desenho de incentivos corretos. Leis punitivas e uma Justiça eficiente podem resolver muito isso. A economia de mercado tem esse nome porque é baseada num sistema de preços, que sinalizam o quão escasso é o produto. Através desse mecanismo sinalizador, as pessoas se ajustam às novas situações, como uma crise no abastecimento de gás, por exemplo.

Mas enfim, não precisa concordar comigo (e acho que não irá), apenas comentei isso tudo porque acho interessante te mostrar esse lado mais analítico, que não sei se conhece. O ensino brasileiro, do fundamental ao superior, é muito inundado de marxismo. Apesar de apreciar alguns dos seus pensamentos, não concordo com alguns tipos de generalizações e seus esforços imensos pra tentar provar que tá tudo errado, em passagens que beiram a arrogância.0

Abraço!

Fábio disse...

Agora entendi melhor a sua posição. Legal. Eu também penso que o modo de produção, em si, não é o único culpado. Alguns marxistas radicais, e até aliendados, levam muito a sério essa questão da economia, assim como Marx levou. O que acontece é que estamos num momento histórico diferente do de Marx - e eu não sou um marxista radical, apenas veja uma imensa importância nas suas obras, entende? E minha vontade de crítica e de mudança me faz, às vezes, pensar como um marxista alienado, que só pensa em matar burgueses e criticar por criticar o positivismo, o neoliberalismo, o capitalismo... etc. Realmente, é importante a questão da produção, pois influi na economia e na propriedade, consequentemente, nas finanças!
Mas, em concordância, com você... não é tudo.

Não pense que sou inquieto e inconformado com o mundo assim o tempo todo não. Tudo é dinâmica. Passamos por experiências que nos influi uma visão mutável de certas coisas. Assim, nos tornamos dialéticos. Temos que discutir para chegar numa verdade própria.
Contudo, é imprescindível o debate. Sinta-se à vontade para criticar o quanto quiser no meu blog. Afinal, ele é "público", é livre. Emitir opiniões com um alcance geral resulta no debate. E o debate nos faz crescer no conhecimento.

PLURALIDADE nos pensamentos também!
VIVA!

Igor Santana disse...

Bom, a tecnologia nos remete ao pensamento positivista de que tudo é progresso. No entanto, nas relações sociais não há progresso e, inclusive, a própria tecnologia torna as diferenças sociais cada fez maiores. O que é produzido, não é produzido para todos e atende a um planejamento de fazer as pessoas consumirem cada vez mais para financiar as EMPRESAS midiáticas que alimentam esse consumismo. Esse consumismo fomenta o sentimento egoísta e aliena os inseridos no sistema. Ao ser alienado, o ser humano fica alheio às condições sociais. O resultado: isso que nós vemos, um progresso tecno-científico sem aplicabilidade social que só atende a pequena parcela da população.
A desigualdade atinge um âmbito macroeconômico e não só local. É verdade que países desenvolvidos tem padrões altíssimos de vida, no entanto, essa análise está restrita aos limites territoriais. Esse desenvolvimento é resultado de todo um processo histórico de exploração (com a colonização e o imperialismo) de países que atualmente são subdesenvolvidos. Portanto, esse padrão de vida exemplar foi resultado de um capitalismo selvagem que não agiu internamente, ele teve um teor nacionalista e xenofóbico ao tornar sua explorção internacional, sobre as atuais nações subdesenvolvidas. Por isso, a riqueza mundial se concentra na mão de poucos. Sobre os problemas estruturais dos países subdesenvolvidos, é notável que estes são resultados (em parte) do próprio capital, já que seus detentores estão muito bem representados no congresso e embargam decisões que trariam justiça distributiva para o país, como a reforma agrária que está prevista na constituição.
Quanto ao egoísmo do ser humano, então o capitalismo e o ideal democrático deveria ser mais claro em seus objetivos. Na teoria, este defende os direitos de dignidade da pessoa humana e na prática não dá uma oportunidade básica para que os todos possam ascender, “ENTRE DESIGUAIS A LIBERDADE OPRIME” já que nem todos tem as mesmas condições. Isso só mostra que além de tudo, o sistema é hipócrita, defende o humanismo mas não torna o mesmo real. É por isso que esse sistema é insustentável, ele mesmo não cria condições favoráveis para a massa, um dia a situção vai ficar tão intolerável que nem a mídia vai conseguir inibir a fúria popular, assim o mundo vai mudar, de forma trágica porque as ideias são escravas do material e, por isso, o mundo não vai ser mudado pelos teóricos e sim pelos historicamente oprimidos e discriminados. O próximo sistema? Só sei que ele virá com base na dialética, no entanto, não sei se será o comunismo. Espero que seja melhor do que este que estamos vivendo.