sexta-feira, 6 de agosto de 2010

À deriva



À deriva


Iniciar mais um recomeço de uma mesma meta
é chorar o tempo que passou
é, sobretudo, refulgar a tristeza do erro
A perda da meta é uma confusão

Selecionar as cenas da estrada que virá
é impossível quando se bóia
no mar que é o acaso, que é sorte
Derivar da meta é uma virtude

Deixar que a onda leve não é crer no destino:
é justamente o contrário
Querer derivar compate com o querer alcançar?

A vontade de realizar a meta
caminha ao lado do boiar sem rumo

no paradoxo que se estabelece em
deixar-se levar: à deriva

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Sem mar



Sem mar



Ah, assim não dá


Ah, dentro deste mar


Você não está cá


Perto de mim


Que graça isso tem?


O mar é tão vasto


Mas sem você ele vira uma espuma


O sentido vira um coral


Sem graça, sem água, sem cor


Sem gosto

domingo, 25 de abril de 2010

O quê precisa de título?




Quarteto Destitulado: o reflexo, a transmissão, o não-reflexo e a costura do título (idéia). O desafio é de natureza humana: construir um símbolo para um objeto que pode ser visto de inúmeros ângulos diferentes, por se apresentar como enunciação. Qual o processo de edificação de um título - sendo ele uma mera representação de um universo simbólico? A realidade de uma banda, assim como a de qualquer outra instituição, é igual a de um indivíduo: indefinida.


O reflexo.
Em qualquer processo de titulação há a busca por identificação. Ainda mais quando o processo é de auto-titulação. Buscar se enxergar no título, é de extrema ansiedade. O reflexo se estabelece, portanto, como necessidade de se garantir uma aparente segurança.


A transmissão.
A avidez por querer comunicar aquilo que desejamos nos ronda. Queremos que nossa mensagem seja recepcionada, mas não de uma forma pré-estabelecida. Até porque nossa mensagem - o som - não permite uma previsibilidade na recepção. O título serve de acessório para a mensagem do som. Desejamos apenas transmití-lo.


O não-reflexo.
Como um obstáculo superável e construtivo no meio do caminho, o não-reflexo se estabelece. Ao mesmo tempo que queremos um título que nos identifique, surge uma força antagônica ao reflexo. Ela é construtiva justamente por nos alertar que esse processo rotulatório é dialético e inseguro. Nós não somos só o nosso reflexo. O não-reflexo nos guia para a estruturação do título.


A costura.
Eis a filosofia: estruturar o título. Costurá-lo, remendá-lo. A idéia que nos resta é dar um título que transmita o "nós". Algo que não tem título, pois o título limita. Quarteto Destitulado.










quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Por uma verdadeira humanidade




"Nunca existiu humanidade. Estamos fazendo os primeiros ensaios do que será a verdadeira humanidade."
Milton Santos, 2001

"A história de todas as sociedades até agora tem sido a história das lutas de classes."
Marx e Engels - Manifesto Comunista, 1848



A humanidade como comunidade de humanos nunca existiu, por isso não se pode dizer "história da humanidade", e sim história das lutas de classes. O verdadeiro sentido da humanidade é inexistente em nossa sociedade global capitalista e, sobretudo, inexistente em qualquer sociedade passada, pois a notória divisão das sociedade em classes econômicas e sociais tem como resultado inevitável uma segregação que tem uma lógica individualista - baseada nos interesses da classe que domina.


Desde a existência do Estado e do Direito - os pilares para fortalecer o modo de produção de uma civilização - a humanidade foi extinta. A dominação de uma classe através da apropriação material se deu sob uma ótica anti-coletiva e reprimiu aqueles que se tornavam subalternos pela exploração dessa classe. Um breve estudo das formações sociais revela o quão é perverso o sistema essencial de segregação do homem pelo homem e as suas respectivas lutas de classes, pois são geradas em razão de cada sistema, de cada formação social. A vitória da classe oprimida em cada formação social dá origem a uma síntese que repudia todas as formas de exploração de uma determinada formação social. As lutas entre o escravo e o seu senhor, entre o súdito e o seu monarca e entre o operário e o seu patrão burguês são reveladas pela história, sob uma perspectiva dialética, para a fundamentação de uma teoria de que não houve e não há humanidade.


As formações sociais se superam, comprovando a dialética história, mas a exploração e a ótica individualista de cada classe dominante permanece sob formas contextualizadas e, sobretudo, diferentes, que empurram a implementação da verdadeira humanidade para a formação social posterior. Milton Santos, ao analisar em várias de suas obras o processo de globalização capilista que se matura após a queda do Muro de Berlim em 1989, teoriza que a globalização é um processo de dominação global, em que o Estado social se definha em detrimento do Estado econômico que se alia com as multinacionais para estabelecer a perversa competitividade imperialista global. Com isso, para fortalecer essa aliança econômica, o consumo é o grande fundamentalismo da cultura midíatica para conduzir os países do terceiro mundo e suas massas populares a fomentar essa hegemonia, essa classe dominante global. O resultado é o extermínio das culturas populares, a satanização e criminalização dos movimentos sociais que servem de interjeição à lógica do capital e a não formação de um cidadão como sujeito de transformação social e sim a reprodução em massa de consumidores, que se alienam com os fetiches e privilégios que o capitalismo oferece a quem os contempla. Essa análise de Milton Santos permite entender como a ordem mundial hoje, propagandeada ideologicamente pela mídia e alicerçada num grupo dominante econômico, afasta o sentido de humanidade em escala global.



Hoje, a única possibilidade de formação da verdadeira humanidade calca-se na vitória da classe oprimida sobre a classe dominante. A formação social que se fundamenta desde o século XIX, composta pelo modo de produção capitalista, gera, como qualquer formação social já existente, a sua própria luta de classes: a luta entre a classe operária e a classe burguesa. Crer na vitória da classe operária através de revolução é a única saída humana do capitalismo para o sistema socialista, visto que a derrota do governo burguês, o fim da propriedade privada dos meios de produção e o extermínio da exploração de classe é a antítese da ordem dominante atual para a síntese de uma nova ordem, calcada no verdadeiro sentido da humanidade.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Por que valorizar as Ciências Sociais?


Para começar o ano de 2010 com uma reflexão (dialética, de preferência) e até chegar num debate, lanço esta pergunta: por que valorizar as ciências sociais? É claro que alguns vão ler o título do post e vão saltitar os olhares, assim como os mais puristas vão sentir falta de uma análise mais aprofundada e mais acadêmica. Para estes, digo que estou de férias e só quero escrever informalmente e, para aqueles que não vão ler, sugiro que leiam, pois é para esse público que eu vou escrever.

A questão da escolha acadêmica é muito subjetiva para muitos que não tem em mente uma proposta de transformação da sociedade em que vivemos, pois, para quem tem a transformação como meta, nada melhor que se inserir nas Ciências Sociais, que tem como principal objetivo instruir na mudança. Eu percebo que a maioria dos pré-vestibulandos da classe média e alta encaram o vestibular e, consequentemente, o curso escolhido como forma de competição visando um imediato e futuro prestígio. Imediato porque a aprovação em tal curso e em tal universidade vale mais que tudo naquele momento do resultado e futuro porque aquele curso vai dar uma base econômica e psicológica após a conclusão e, por conseguinte, o prestígio vai se estabelecer. As Engenharias, o Direito e a Medicina se fundamentam como os medalhões do vestibular justamente por representarem uma proposta de prestígio social, pois a ascenção econômica é "garantida". As Ciências Sociais, por sua vez, se tornam subalternas e menosprezadas num vestibular que segue os ditames do mercado e do conservadorismo. A escolha no vestibular é moldada a partir de valores econômicos que se resultam em prestígios, por isso fica difícil para aquele vestibulando que tem uma proposta de transformação social seguir num curso que lhe corresponda num sistema tal como é: guiado pelo mercado.

Tendo como primeiro obstáculo às Ciências Sociais o vestibular, todos os outros obstáculos se resumem à falta de ímpeto revolucionário à juventude que se conforma com a violência, com o desemprego, com a pobreza, com a mortalidade infantil, com a criminalidade como forma de sobrevivência nas massas populares e que possui maus olhares à Che Guevara, à Karl Marx, ao MST e a todos os atores que desejam uma mudança verdadeiramente não-reformista no quadro social. Valorizar as Ciênciais Sociais não é simplesmente cursar um de seus cursos na universidade, é, antes de tudo, querer apoiar e incentivar aqueles que se comprometem com a luta do povo contra a elite e que poderá oferecer uma vida mais humana à grande parte de sociedade. A valorização às Ciências Sociais se tornará eficiente quando diminuir o número de pessoas que se autoalienam em prol de um conforto e bem estar individual para darem valor a um discurso coletivo e não segregador.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O Direito como perversidade e como utopia





A prática e a doutrina da ciência humana do Direito - que para muitos é normativa e para outros muitos nem ciência é - demonstra, hoje, sua anomalidade e perversidade como síntese de um processo dialético na história. A formação da cultura e do profissional jurídico no Brasil esteve arraigada em princípios conservadores, individualistas, liberais-burgueses, e por causa disso o Direito se tornou anti-social, por não representar e nem enxergar o povo no seu arcabouço burocrata, que inclui o vocabulário defasado. É triste perceber esses traços que geram inúmeras perversidades e que foram implantados no Brasil-colônia aqui conosco em pleno 2009: nas faculdades de Direito, no exercício jurídico em suas variadas facetas, na política partidária dos juristas e no imaginário acrítico do povo. A tradição jurídica desvinculadas de atitudes mais comprometidas com a vida cotidiana e com uma sociedade em constante transformação é um levantamento de pura perversidade aqui no Brasil. A postura técnica e casuística fecha-se frente ao dinamismo dos fatos e resiste a um direcionamento criativo, não conseguindo mais responder a novas necessidades. O exercício do Direito como algo supremo, chique e exclusivo para poucos é um embargo à realidade social, visto que, por esse e por muitos fatores, a Sociologia jurídica como matéria ineficaz e desvalorizada nos cursos de Direito e a práxis social é atividade alheia à maioria dos juristas e, principalmente, dos magistrados.
Há de se repensar o exercício da prática jurídica, certamente como utopia, tendo em conta uma nova lógica ético-racional, capaz de encarar a produção dos direitos como inerentes ao processo histórico-social, um Direito que transpõe os limites do Estado, encontrando-se na práxis social, nas lutas cotidianas, nas coletividades emergentes e nos movimentos sociais. Há de se perspectivar um novo Direito, junto com uma nova racionalidade e prática jurídica, pois não há de se conviver muito tempo com esse insustentável Direito alienado e alienante!

sábado, 10 de outubro de 2009

Nem Lula, nem Obama, nem o MST...


Nada de mais bizarro que ler frases de Lula e saber do ganho do Nobel da Paz de Obama pode acontecer hoje. Ou, pelo menos, ao decorrer da semana que vai se iniciar. Primeiramente, leio uma nota pequena no jornal A Tarde de hoje em que Lula criticou o "ato de vandalismo" do MST - no qual foi derrubado pés de laranja numa fazenda invadida pelos ruralistas sem-terra. Segundo ele, foi um ato de vandalismo e não uma manisfestação de cobrança. "Pode demonstrar sem fazer destruição de máquinas e nem de pés de laranja", disse ele.


O MST é um grupo de pressão. É um grupo de fudidos que não têm terras para produzir e nem para morar, por isso pressionam o Estado para que se efetue os assentamentos da reforma agrária que está prevista em lei. A reforma agrária está prevista em lei. Lula, ao encerrar seu discurso sobre o "ato de vandalismo" dos sem-terra, nos relembra que este país tem constituição e leis que precisam ser cumpridas. Notoriamente, ele se referia a leis de proteção e defesa da propriedade privada - em que todos devem respeitar a propriedade privada alheia. Engraçado. Nessa horas de contradições sempre penso em Marx: em todo argumento, toda teoria, há sua contradição. Lula se auto-criticou. Se a reforma agrária está prevista em lei, ela deve ser cumprida. Se não é cumprida, o MST vai continuar pressionando e descumprindo leis que se referem à propriedade privada (a terra, no caso) até que a lei se assente. É compreensível o "ato de vandalismo" dos sem-terra, mas, obviamente, não é o ideal. Simultaneamente, considerando-se a formação social e ética do nosso país, é compreensível o descaso dos políticos com os pobres e sem-terra. Não chega nem um pouco a ser prudente, quanto mais a ser ideal.


Em seguida, leio sobre o prêmio Nobel da Paz. Obama ganhou por representar uma atividade de diplomacia entre os países do mundo, dissipando a paz. Nada se falou sobre as bases militares americanas espalhadas no mundo. Nada se falou sobre as tropas militares no Iraque. É lamentável, diante de tantos ícones mundiais que receberam esse prêmio como Mandela, assistir à essa palhacada. Realmente, deve estar faltando gente que represente e promova a paz neste mundo, porque Obama não chega aos pés de alguns merecedores desse prêmio.


Nem Lula, nem Obama, nem o MST deveriam ter ganho o prêmio Nobel da Paz. Desta vez, considerando a falta de ícones e representantes públicos mundiais dignos de receber o prêmio, receberíamos nós: a sociedade civil, o povão alienado. Nós, realmente, somos inativos no sentido de mudança das situações diversas que, aparentemente, nos afetam. Seríamos nós os ganhadores do Nobel da Paz. A paz no sentido da tranquilidade, da conformidade, da pacífica solução que não efetuamos até hoje - provavelmente, nunca será efetuada. É um mérito pela alienação nossa de cada dia, que pacifica nossas atitudes com relação à injustiça social e indignação com os fatos absurdos que nos circundam.